Há uma diferença importante entre escrever sobre a própria vida e escrever a partir daquilo que se observa. O homem que não aprendeu a ser amado, primeiro livro de Dairan Carvalho, nasce justamente nesse intervalo. Lançada em 3 de setembro pela UICLAP, a obra é uma coletânea de crônicas de ficção que acompanha Don, personagem construído a partir da imaginação do autor e atravessado por situações, sentimentos e comportamentos reconhecíveis na vida cotidiana. O livro está disponível nas versões física e digital, na UICLAP, Amazon e Kindle.
O que interessa a Dairan não é reproduzir acontecimentos reais, mas observar o que existe por trás deles. Uma conversa interrompida, uma mensagem esperada, uma despedida, um encontro, uma aproximação ou o silêncio entre duas pessoas podem servir de ponto de partida para uma pergunta maior. É nesse território que o autor constrói sua literatura: o cotidiano como matéria-prima, a ficção como elaboração e as relações humanas como campo de investigação.
A escolha do título desloca ainda mais a perspectiva. Não se trata do homem que não sabe amar, mas daquele que, embora seja capaz de amar, não aprendeu a acreditar que também pode ser amado. A diferença parece sutil, mas é justamente nela que o livro encontra seu principal conflito.
A publicação também acontece em um momento particular da trajetória de Dairan. Durante um período de afastamento do trabalho, em meio a dificuldades emocionais, o autor recebeu de sua psicóloga e de seu psiquiatra o incentivo para escrever. O exercício da escrita ajudou a organizar pensamentos e sentimentos e, posteriormente, encontrou na ficção uma forma de existência própria.
Nesta entrevista exclusiva ao RMS em Foco, Dairan Carvalho fala sobre a origem do livro, o processo de transformar observação em ficção, a sensibilidade masculina, a vulnerabilidade e a diferença entre saber amar e saber receber amor.
Dairan Carvalho: Existe muito no processo de escrita, mas é importante separar processo e narrativa. O livro é uma obra de ficção. Don é um personagem que eu construí, e as situações que aparecem nas crônicas foram elaboradas literariamente. Não são relatos da minha vida.
O que aconteceu comigo naquele período foi outra coisa. Eu precisava organizar pensamentos que estavam muito dispersos. Durante muito tempo, a gente consegue empurrar determinadas questões para depois. Trabalha, resolve problemas, cumpre compromissos, conversa com pessoas. Quando você é obrigado a parar, algumas coisas que estavam escondidas começam a aparecer.
Minha psicóloga e meu psiquiatra perceberam que a escrita poderia ser uma ferramenta importante nesse processo e me incentivaram a escrever. Comecei sem pensar em livro. Escrevia porque precisava colocar algumas coisas em ordem.
Aos poucos, percebi que determinados temas retornavam. Afeto, ausência, medo, relações, expectativa, a dificuldade de confiar na permanência de alguém.
Foi aí que a literatura começou a fazer uma operação diferente.
Eu não precisava mais escrever sobre aquilo que estava vivendo. Podia pegar uma sensação, uma pergunta ou uma observação e transformá-la em outra coisa. Criar uma pessoa que não existia, colocá-la diante de determinadas situações e descobrir o que ela faria.
Acho que foi nesse momento que Don nasceu.
Dairan Carvalho: Vem da observação.
Eu gosto de observar pessoas. Sempre gostei. Conversas, comportamentos, pequenos gestos, maneiras de alguém se relacionar com outra pessoa. Às vezes uma situação aparentemente banal provoca uma pergunta.
Por que alguém se afasta justamente quando começa a gostar?
Por que uma pessoa desconfia quando recebe carinho?
Por que alguém consegue cuidar tão bem dos outros, mas tem dificuldade de aceitar que também precisa ser cuidado?
A ficção começa nessas perguntas.
Don não é uma pessoa específica. Ele é uma construção. Mas é construído com elementos que existem na realidade: sentimentos que observamos, comportamentos que reconhecemos, situações que poderiam acontecer.
Acho que a literatura trabalha muito com isso. Você olha para o mundo, recolhe alguma coisa e depois transforma.
Não é uma fotografia.
É outra imagem construída a partir daquilo que foi visto.
Dairan Carvalho: Talvez a maior parte da nossa vida esteja justamente nessas coisas.
Os grandes acontecimentos são importantes, mas são poucos. O cotidiano é permanente.
Uma relação não é construída apenas no momento em que duas pessoas dizem que se amam. Ela se constrói nas conversas, nas pequenas escolhas, na maneira como uma pessoa olha para a outra, no silêncio depois de uma pergunta, na mensagem que alguém decide enviar ou não enviar.
Essas coisas carregam significado.
A crônica me interessa porque permite olhar para elas sem a obrigação de transformá-las em grandes acontecimentos.
Uma pessoa toma um café, volta para casa e pensa em alguém. Isso pode parecer insignificante. Mas talvez aquela pessoa esteja apaixonada. Talvez esteja com saudade. Talvez esteja tentando esquecer.
O acontecimento é pequeno.
O que acontece dentro da pessoa pode não ser.
É aí que encontro a literatura.
Dairan Carvalho: Existe uma dificuldade que me parece menos discutida.
Nós falamos bastante sobre a capacidade de amar. Sobre encontrar alguém, construir uma relação, demonstrar afeto. Mas existe também a capacidade de receber.
Ser amado exige uma espécie de entrega.
Quando alguém gosta de você de verdade, você perde uma parte do controle. Aquela pessoa passa a ter importância. Pode conhecer suas fragilidades. Pode perceber coisas que você tenta esconder. E existe também a possibilidade da perda.
Talvez algumas pessoas não tenham exatamente medo do amor.
Tenham medo do que pode acontecer depois que acreditarem nele.
Don consegue amar. O problema é acreditar que alguém possa amá-lo e permanecer.
Ele olha para o afeto recebido e, em algum momento, começa a procurar a razão pela qual aquilo vai acabar.
É uma espécie de antecipação da perda.
E talvez seja justamente aí que esteja a contradição do personagem: ele deseja aquilo que, quando encontra, passa a temer.
Dairan Carvalho: Sim, embora eu não tenha escrito o livro como um tratado sobre masculinidade.
A questão apareceu naturalmente.
Existe uma educação emocional que ainda é muito rígida para os homens. Desde cedo, muitos aprendem que precisam suportar, resolver, proteger. Demonstrar fragilidade quase sempre é tratado como uma espécie de falha.
Só que ninguém deixa de sentir porque aprendeu a esconder.
O homem continua sentindo medo, saudade, ciúme, insegurança, necessidade de carinho. Apenas nem sempre encontra uma linguagem para isso.
A literatura pode oferecer essa linguagem.
Não queria escrever um personagem exemplar. Don não é um modelo de comportamento. Ele erra, hesita, se contradiz e, em alguns momentos, pode até tomar decisões que o leitor não compreende.
Isso também é importante.
A vulnerabilidade não transforma ninguém automaticamente em uma pessoa melhor.
Ela apenas nos torna mais conscientes de que somos frágeis.
Dairan Carvalho: A intimidade.
A crônica permite chegar muito perto sem precisar explicar tudo.
Você pode começar falando de uma situação banal e terminar diante de uma questão existencial. Pode contar uma conversa e deixar que o silêncio diga alguma coisa.
Também gosto do fato de a crônica preservar certa brevidade. Ela não precisa conduzir o leitor pela mão.
Gosto de deixar espaço.
Quero que o leitor termine um texto e continue pensando. Que complete alguma coisa por conta própria.
Até porque uma história sobre relações humanas nunca pertence inteiramente ao autor.
Cada pessoa lê com a própria memória.
Dairan Carvalho: Foi uma forma de organizar.
Não sei se a literatura consegue compreender completamente alguma coisa. Às vezes ela apenas consegue fazer perguntas melhores.
Durante aquele período, eu tinha muitas coisas dentro de mim que pareciam não ter começo nem fim. Quando comecei a escrever, elas passaram a ocupar lugares diferentes.
Algumas viraram frases.
Outras viraram personagens.
Algumas simplesmente desapareceram.
E algumas permaneceram.
Acho que escrever não elimina aquilo que sentimos. Mas pode mudar nossa relação com aquilo.
Quando uma coisa está apenas dentro da cabeça, ela pode parecer enorme e indefinida. Quando vai para o papel, passa a existir diante de você.
Você pode olhar.
Pode cortar.
Pode reescrever.
Pode transformar.
A ficção me permitiu fazer isso sem precisar transformar minha vida em narrativa.
Eu poderia pegar uma pergunta que me incomodava e entregá-la a Don.
Depois, era ele quem precisava descobrir o que fazer com ela.
Dairan Carvalho: Talvez eu tenha descoberto que ele não é tão diferente de outras pessoas.
O medo de ser abandonado pode fazer alguém desconfiar justamente daquilo que mais deseja.
Acho que todos nós temos alguma dificuldade em receber alguma coisa.
Para alguns é amor. Para outros é cuidado. Para outros, reconhecimento.
Existe uma vulnerabilidade particular em aceitar que alguém faça alguma coisa por nós sem precisar devolver imediatamente.
Ser amado também significa admitir que precisamos do outro.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis.
A literatura de Dairan Carvalho não procura transformar o cotidiano em algo extraordinário. Faz o movimento contrário: encontra o extraordinário dentro do que parece banal.
Essa talvez seja uma das características mais interessantes de O homem que não aprendeu a ser amado. O livro não se apresenta como confissão, diário ou relato autobiográfico. É uma obra de ficção que utiliza a observação do cotidiano como matéria-prima para construir personagens e conflitos.
Don é inventado. As situações são literariamente construídas. Mas os sentimentos que atravessam suas experiências pertencem a um território reconhecível.
É nesse ponto que a ficção deixa de ser apenas invenção.
Uma mensagem que não chega, uma pessoa que vai embora, alguém que decide permanecer, o receio de confiar, a dificuldade de aceitar carinho: nada disso precisa ter acontecido exatamente como aparece no livro para ser verdadeiro dentro da experiência humana.
Dairan escreve a partir desse lugar.
Não tenta explicar o amor.
Não procura oferecer uma fórmula para as relações.
Tampouco transforma a vulnerabilidade em virtude automática.
O que faz é mais simples e, talvez por isso, mais difícil: observa um homem tentando entender por que aquilo que ele mais deseja também é capaz de assustá-lo.
No fim, o título deixa de ser apenas uma definição de Don e passa a funcionar como pergunta.
O que precisamos aprender para aceitar que alguém pode nos amar?
É uma pergunta que pertence ao personagem.
Mas, como toda boa pergunta literária, não termina nele.